A formação do cânon
Rudi Zimmer* — Paulo Teixeira**
As afiliadas das Sociedades Bíblicas Unidas servem às Igrejas Cristãs com a tradução, publicação e distribuição de Escrituras em mais de 200 países.
Desde 1804, quando surgiu a Sociedade Britânica e Estrangeira, o movimento de Sociedades Bíblicas tem se dedicado a tornar a Bíblia disponível ao maior número possível de pessoas, numa linguagem
que elas entendam e a um preço que possam pagar.
Essa missão tríplice foi confiada às Sociedades Bíblicas pelas Igrejas Cristãs que as constituíram, e é através das Igrejas Cristãs e em cooperação estreita com elas que as Sociedades Bíblicas buscam desenvolver a missão de traduzir, publicar e distribuir as Escrituras aos povos.
Em seu serviço às diversas Igrejas Cristãs no mundo, as Sociedades Bíblicas têm acumulado uma
considerável experiência e vivência interconfessional, tendo as Escrituras como ponto de diálogo e convergência entre as diversas denominações cristãs.
O presente artigo quer compartilhar com o leitor o tema ―A Formação do Cânon‖ na perspectiva do
serviço das Sociedades Bíblicas às Igrejas Cristãs ao redor do mundo, o que se fará sentir especialmente na conclusão ao trabalho. Com esse pano de fundo, serão abordados os seguintes tópicos relativos ao cânon: 1. O significado da palavra ―cânon‖; 2. A relevância do tema; 3. Posições sobre a formação do cânon; 4. Dois cânones (Antigo Testamento e Novo Testamento); e 5. Número e ordem dos livros bíblicos.
1. O significado da palavra “cânon”
O termo grego kanon vem de uma palavra semítica que significa ―cana‖, ―junco‖. No Brasil corresponderia a qualquer planta de caule longilíneo, típica de matas ciliares e áreas pantanosas. No Brasil, o espécime mais comum é a taboa (também chamada de tabua), planta da família das tifáceas, abundante nos brejos e alagadiços de norte a sul do país.
Kanon começa a aparecer na literatura do Crescente Fértil (região que vai de Ur dos Caldeus ao Egito)
entre 2.000 e 1.800 a.C. Embora no início se referisse apenas ao vegetal propriamente dito, posteriormente kanon passou a expressar outros significados e utilidades. Assim, além da planta, kanon começou a referir-se à cana como um dos primeiros instrumentos de medida e, dessa maneira, veio a designar a ―cana de medida‖. Quase na mesma época, kanon também designou um instrumento de alisar ou nivelar, similar à hodierna ―régua de pedreiro‖. Depois, figuradamente, passou a significar ―aquilo que regula, julga, ou serve como norma ou modelo para outras coisas‖.
Já no Novo Testamento, em Gl 6.16, o apóstolo Paulo usa este termo (κανων) no sentido de ―regra‖ ou ―norma‖, como se pode ler:
• ARA: ―E, a todos quantos andarem de conformidade com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus.‖
• ARC: ―E, a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o
Israel de Deus.‖
• NTLH: ―E, para todos que seguem essa regra na sua vida, que a paz e a misericórdia estejam com
eles e com todo o povo de Deus.‖
Só no século 4 d.C. o termo ―cânon‖ veio a ser usado para as Escrituras, primeiramente por Atanásio (em 352 d.C.: De Decretis Nicaenae Synodi, 18.3) e, depois, no Concílio de Laodiceia, em 360 d.C. Nesse sentido, o termo ―cânon‖ passou a referir--se ao grupo dos livros reconhecidos pelas igrejas ou comunidades locais como regra de fé e vida.
2. A relevância do tema
Para muitos cristãos, inicialmente, o tema não parece relevante. As gerações atuais praticamente já
nasceram com uma Bíblia pronta, com os livros bíblicos dispostos numa certa ordem e encadernados num só volume, com Índice e Prefácio. Os cristãos acostumaram-se com a Bíblia que receberam. Nem nos damos conta de que nem sempre foi assim. E quando só havia rolos, como se sabia que livros eram exatamente os que pertenciam à Bíblia, ou seja, ao cânon das Escrituras? Pois havia uma porção de outros livros que também eram lidos e usados pelos cristãos no período da Igreja Primitiva. Ao longo da história, as Igrejas Cristãs responderam diferentemente à pergunta sobre quais ―livros‖ (no princípio, ―rolos‖) elas reconheciam como dignos de compor a sua regra de fé e vida.
No Brasil, é comum os cristãos saberem da existência de dois cânones:
• Evangélicos estão bem afeitos à Bíblia com 66 livros (39 no Antigo Testamento e 27 no Novo
Testamento).
• Católicos romanos têm a Bíblia com 73 livros (46 no Antigo Testamento e 27 no Novo
Testamento).
No mundo afora, no entanto, há uma diversidade bem maior do que esta comumente identificada no
Brasil. Quando pensamos no contexto das Igrejas Ortodoxas (que detêm o segundo lugar em número de adeptos no mundo), encontraremos uma diversidade ainda maior de cânones. No bloco de Igrejas Ortodoxas, há cinco tradições ou recensões canônicas diferentes, quais sejam:
• Cânon Luciânico
• Cânon Copta
• Cânon Eslavo Antigo
• Cânon Georgiano Antigo
• Cânon Armênio Clássico (ou Ge‘ez)
Todas essas tradições canônicas apresentam diferenças entre si no que diz respeito ao número e ordem dos livros, bem como no que tange ao texto base usado para a tradução (as Igrejas Ortodoxos em geral consideram a Septuaginta – tradução das Escrituras hebraicas para o grego – como o texto base do qual o Antigo Testamento deve ser traduzido para as línguas modernas).
Algumas das tradições canônicas das Igrejas Ortodoxas têm mais livros como canônicos, outras têm menos livros. Por exemplo, a Igreja Siríaca, às vezes chamada de Ortodoxa Antioquina, tem um Novo Testamento com 22 (e não 27) livros. Nascida na era apostólica (século 1 d.C.), a Igreja Siríaca nunca aceitou 2Pedro, 2 e 3João, Judas nem Apocalipse em seu cânon. Mesmo assim, até hoje a Igreja Siríaca tem sido baluarte da fé cristã numa região de crescente oposição ao Cristianismo.
Ao tomar conhecimento de uma diversidade maior de cânones, ficamos curiosos e perguntamos: Como é que se formou o cânon? Como cada uma das Igrejas veio a ter uma Bíblia com exatamente certo número de livros?
Buscando aproximar a questão do cânon de nossa própria realidade cotidiana e espiritual, convém
perguntar:
• Quantos livros tem a nossa Bíblia?
• Qual é o cânon bíblico para nós?
• Livros como Levítico, Cântico dos Cânticos, Naum, Sofonias, Obadias e Filemom fazem parte
ativa do nosso cânon?
• São lidos por nós com apreço?
• Pregamos sobre eles com regularidade?• São estudados com avidez como fonte de edificação para nós, para nossa igreja e sociedade?
• Servem de norma para nossa fé e vida cristãs?
A reflexão sobre tais questões aumenta a relevância do assunto para nós e é decisiva na maneira como
lidamos com a nossa própria tradição canônica e com a tradição canônica das demais Igrejas Cristãs.
3. Posições sobre a formação do cânon
Há, basicamente, duas posições sobre a formação do cânon. Numa delas, defende-se que o cânon surgiu por um processo meramente humano. Na outra, que o cânon foi formado por ação divina.
3.1. Processo puramente humano
Na literatura sobre o cânon, encontramos autores que explicam a formação do cânon como um processo puramente humano. Segundo esta posição, os livros, quando apareceram, não teriam sido sagrados nem divinamente autoritativos e nem eram vistos como tal. Os livros teriam adquirido tal posição na medida em que a comunidade de fé dos cristãos lhes atribuía tal condição sagrada e autoridade. Depois, motivada por ameaças e perigos (heresias e perseguições), a Igreja os canonizava (isto é, os declarava sagrados, santos), com a finalidade de garantir uma norma de fé e de conduta cristãs. Neste sentido, o cânon se formava a partir de uma decisão da comunidade de fé. Alguns defensores dessa posição às vezes reconhecem, de alguma forma, a presença da providência de Deus nesse processo.
3.2. Obra divina
Outros autores entendem a formação do cânon como obra divina, fazendo-o principalmente à luz de 2Pe 1.21. Segundo esses autores, os livros bíblicos foram escritos através do mistério da inspiração. Os escritores bíblicos foram instrumentos de Deus no registro e entrega da mensagem divina (2Tm 3.16, teópneustos = ―inspiração divina‖, literalmente ―Deuspiração‖).
Por isso mesmo, desde o momento em que apareceram, sendo entregues aos cristãos por apóstolos e evangelistas, os livros já eram divinamente autoritativos. De acordo com essa posição, a canonização nada mais é do que o reconhecimento (testemunho de fé) da Igreja Cristã (comunidade de fé) de que esses livros inspirados formam a sua regra e norma de fé e vida cristãs. Portanto, em vez de ter ocorrido por meio de uma conspiração ou decreto (como sugere a moderna literatura ficcional volta e meia em nossos dias), na verdade, a canonização ocorreu como reconhecimento. A partir disso, fica enunciado um princípio fundamental a respeito da Bíblia e do cânon, ou seja: ―Não é a Igreja que cria o cânon, mas é o cânon (Palavra de poder) que cria a Igreja‖.
Diferentes denominações cristãs, em boa fé e de boa consciência, ao longo da história, têm elegido diferentes cânones, com mais ou menos livros. Cada cânon, em si, está fechado e consagrado para a comunidade de fé ou denominação que o reconheceu e que bem o aceita como o conjunto de livros que encerra sua regra de fé e vida. A mensagem central da salvação em Jesus Cristo está bem preservada em todas as tradições canônicas e é comum a todas elas.
4. Dois cânones: Antigo Testamento e Novo Testamento
Não se pode falar, de uma vez, num só cânon, mas de dois: o cânon do Antigo Testamento e o cânon do Novo Testamento. Cada Testamento tem sua história distinta no tocante à formação do cânon.
4.1. Cânon do Antigo Testamento
Quantos livros tem o Antigo Testamento? Apesar de judeus e protestantes aceitarem as mesmas Escrituras hebraicas como canônicas, os judeus costumavam dividir a sua Bíblia (que corresponde ao Antigo Testamento das Bíblias cristãs) em 22 ou 24 rolos, enquanto os protestantes acostumaram-se a dividir as Escrituras hebraicas em 39 livros.Duas listas de livros do Antigo Testamento, compostas por judeus, chegaram até nós. O historiador judeu
Flávio Josefo (segunda metade do século 1 d.C.), menciona 22 livros. Numa outra fonte, o livro apócrifo de 2Esdras (às vezes chamado de 4Esdras, normalmente datado de 90 d.C.), são mencionados 24 livros. Independentemente da lista que se tome, os livros podem ser divididos em 3 grandes seções, quais sejam:
• Torá (a Lei): Esta seção é formada por 5 livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e
Deuteronômio.
• Neviim (os Profetas): Esta seção é formada por 8 livros, subdivididos em:
▪Profetas Anteriores: Josué, Juízes (às vezes publicado num mesmo rolo com Rute), Samuel e
Reis; e
▪ Profetas Posteriores: Isaías, Jeremias (às vezes publicado num mesmo rolo com Lamentações),
Ezequiel e os Doze (os Profetas Menores, de Oseias a Malaquias, cujo conteúdo cabia
integralmente num rolo).
• Khetuvim (os Escritos): Esta seção é formada por 9 ou 11 livros: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester, (Rute, Lamentações, na lista dos 24), Daniel, Esdras (geralmente publicado num mesmo rolo com Neemias) e Crônicas. As letras iniciais de cada uma das 3 seções das Escrituras dos judeus originou o anagrama TaNaKH, que designa o conjunto dos livros presentes, por exemplo, na Biblia Hebraica Stuttgartensia, co-publicada, a partir de 2008, pela Sociedade Bíblica Alemã e pela Sociedade Bíblica do Brasil, ferramenta fundamental para estudantes do Antigo Testamento, tradutores e teólogos. Como na época de Jesus e dos apóstolos o Antigo Testamento já existia, seria de se esperar que o Novo Testamento claramente dissesse quais seriam os livros que compõem o Antigo Testamento. No entanto, podemos ler o Novo Testamento de Mateus a Apocalipse e não encontraremos a listas dos livros do Antigo Testamento. Podemos, é claro, ter uma ideia geral de quais eram os livros que os apóstolos e evangelistas consideravam parte do Antigo Testamento, assim por se dizer, parte do seu cânon ativo das Escrituras hebraicas. Esta ideia geral de quais eram os livros considerados parte do Antigo Testamento advém:
• das citações que o Novo Testamento faz de passagens de livros do Antigo Testamento;
• das alusões que o Novo Testamento faz a textos de livros do Antigo Testamento. Há, porém, no Novo Testamento, também alusões a outros livros que, dependendo da Igreja Cristã, não são considerados parte da tradição canônica de sua Bíblia, como se vê:
• em Rm 1.18-32 há uma alusão ao conteúdo de Sabedoria 12—14;
• Rm 2.1-11 reflete o conteúdo de Sabedoria 11—15;
• Hb 11.35b-38 alude o conteúdo de 2Macabeus 6.18—7.41 e de 4Macabeus 5.3—18.24;
• Jd 14-16 menciona fatos registrados em 1Enoque 1.9 e na Ascensão de Moisés.
Àqueles que mantinham profunda esperança de que os manuscritos encontrados junto ao Mar Morto (nas cavernas de Qumran) elucidariam a questão canônica das Escrituras hebraicas, convém mencionar que ali foram achados manuscritos de todos os livros do Antigo Testamento, menos do livro de Ester. Isso pode significar que Ester não fizesse parte da tradição canônica daquela comunidade religiosa comumente identificada como sendo dos essênios. Além disso, em Qumran também foram encontrados fragmentos de outros livros, não se sabendo, portanto, que livros eram considerados canônicos ou não por aquela comunidade da região do Mar Morto. Diante dessas evidências, como sabemos, então, quais são exatamente os livros canônicos do Antigo Testamento?
O Novo Testamento traz, sim, referências gerais ao cânon do Antigo Testamento. Na verdade, antes do
Novo Testamento, há uma referência ao cânon do Antigo Testamento no Prólogo (ou Introdução) ao livro deuterocanônico (que faz parte da tradição canônica católica romana) de Eclesiástico (ou, A Sabedoria de Jesus, filho de Siraque). O neto de Jesus (ou Josué), filho de Siraque (180 a.C.), começa assim a introdução a esse livro: ―Os livros da Lei, os livros dos Profetas e os livros que foram escritos depois nos deixaram muitos ensinamentos de valor.‖ Depois, o escritor do Eclesiástico ainda repete duas vezes a expressão: ―a Lei, os livros dos Profetas e os outros livros.‖Semelhantemente, o Novo Testamento faz referências ao Antigo Testamento em algumas passagens, por exemplo:
• Em Mt 5.17, Jesus diz: ―Não penseis que vim revogar a Lei [referindo-se à Torá] ou os Profetas
[referindo-se aos Neviim].‖
• E em Mt 7.12: ―Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a
eles; porque esta é a Lei [referindo-se à Torá] e os Profetas [referindo-se aos Neviim].‖
A referência mais detalhada está em Lc 24.44-45, no diálogo do Cristo ressurreto com os discípulos no caminho de Emaús:
A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés [referindo-se à Torá], nos
Profetas [referindo-se aos Neviim] e nos Salmos [referindo-se ao primeiro livro dos Khetuvim]. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras.
Temos aqui uma clara referência às três partes do Antigo Testamento (Torá, Neviim e Khetuvim),
conforme o dividiam os judeus. Mesmo assim, também não enumera os distintos livros.
Conforme uma tradição dos judeus, seus livros canônicos haviam sido aceitos por volta do final do
século 1 d.C., num Concílio na cidade de Jâmnia, na Palestina. Talvez não tenha havido mesmo um
Concílio, mas é certo que em Jâmnia, um prolífico centro de estudos das Escrituras, a questão canônica
esteve na pauta das discussões de alunos e rabinos. Conforme o testemunho da Mishná, um escrito judaico do século 2 d.C, teria sido em Jâmnia que pelo menos Ester e o Cântico dos Cânticos, livros cuja canonicidade vinha sendo discutida há muito pelos judeus, foram finalmente aceitos no cânon judaico. Seja como for, por volta do final do século 1 d.C. os judeus reconheciam como canônicos os 22 (ou 24) livros cujo conteúdo, embora dividido em mais livros (39), é o mesmo presente no Antigo Testamento das Bíblias hoje chamadas ―evangélicas‖.bDiga-se de passagem que a decisão dos judeus quanto ao cânon (a chamada veritas hebraica) foi seguida por Jerônimo, o tradutor da Vulgata, e pelos Reformadores do século 16, Lutero e Calvino. A decisão dos judeus fez Jerônimo e os Reformadores verem como canônicos os mesmos livros reconhecidos pelos judeus e a considerar como não inspirados os demais livros herdados via Septuaginta (embora pelo menos até o
início do século 19 ainda muitas Bíblias protestantes apresentassem, mesmo que numa seção separada,
alguns livros que não constavam do cânon judaico). Advém disso que o Antigo Testamento das Bíblias
―evangélicas‖ ou ―protestantes‖ tenha o mesmo conteúdo dos livros da Bíblia Hebraica. Já as Bíblias
―católicas‖ têm um cânon diferente no Antigo Testamento porque a opção do Concílio de Trento, também no século 16, foi adotar o cânon grego das Escrituras, mais extenso que do que o cânon judaico.
A lista mais antiga das Escrituras canônicas do Antigo Testamento é de cerca de 170 d.C. e foi feita por um estudioso cristão, chamado Melito de Sardes. Tanto pelas referências encontradas no Novo Testamento como pela lista transmitida por Melito de Sardes vemos que Deus tinha feito com que os cristãos reconhecessem um conjunto de livros do Antigo Testamento como os seus livros inspirados. No entanto, os limites exatos dessa coleção sempre permaneceram em discussão, o que pode causar estranheza a alguns.
Nesse ponto, é salutar pensar na História da Igreja e nos seus personagens, muitos dos quais, embora renomados heróis da fé, manifestaram dificuldade com um ou outro livro bíblico, como é o caso de Martinho Lutero, o Reformador do século 16. Martinho Lutero trouxe à luz uma das principais traduções da Bíblia. Traduziu-a para o alemão simples, popular, querendo que crianças e adultos tivessem acesso à sua leitura e pudessem mesmo ser alfabetizados pela Bíblia. No Antigo Testamento, além dos 39 livros canônicos, traduziu também os demais que ao longo da Idade Média começaram a fazer parte da tradução latina de Jerônimo, destacando, em nota prefacial, sua posição pessoal de que aqueles livros extras, embora não inspirados como os demais, eram úteis para a leitura por trazerem ensinamentos bons e piedosos. Por outro lado, esse mesmo Reformador questionava a canonicidade de outros livros como Tiago (que costumava chamar ―epístola de palha‖, por considerar que faltava ali a pregação de Cristo e, portanto, da justificação pela fé) e 2Pedro (cujo conteúdo, bastante similar ao da epístola de Judas, Lutero objetava). Nenhuma dessas opiniões do Reformador afetou sua sólidaposição cristã sintetizada no lema: Sola gratia [somente a graça], sola fide [somente pela fé], sola Scriptura [somente a Escritura]. Antes de passar para a formação do cânon do Novo Testamento, é também oportuno rememorar, à guisa de resumo do que foi visto até aqui, os seguintes ensinamentos, aprendidos quando consideramos a questão canônica no âmbito das distintas Igrejas Cristãs espalhadas pelo mundo:
• Deus levou os cristãos a reconhecerem um conjunto de livros do Antigo Testamento como
inspirados, mas os limites exatos dessa coleção permaneceram em discussão.
• Há denominações cristãs que reconhecem como canônicos alguns livros a mais. Outras, alguns
livros a menos.
• Todas as Igrejas Cristãs, no entanto, são unânimes em reconhecer como inspirados e divinamente
autoritativos a maioria dos livros do Antigo Testamento que estão na Bíblia Hebraica e que formam a base da teologia do Antigo Testamento.
• A veritas hebraica foi um postulado surgido no Judaísmo num tempo em que este claramente se afastou do Cristianismo. Por causa disso, alguns estudiosos cristãos contestam a adoção da veritas hebraica (ou cânon judaico) como argumento legítimo e definitivo a favor de um Antigo Testamento com 39 livros na Bíblia cristã.
• Pontos de dissensão entre as Igrejas Cristãs, em geral, estão em passagens bíblicas dos livros aceitos como canônicos por todas.
4.2. O Cânon do Novo Testamento
Também no caso do Novo Testamento não encontramos qualquer referência a uma lista dos 27 livros considerados inspirados por Deus e autoritativos para a Igreja Cristã. Por volta do ano 95 d.C., todos os 27 livros reconhecidos como canônicos por católicos romanos e protestantes já haviam sido escritos. Historiadores e pregadores da Igreja, que citavam os escritos dos apóstolos e evangelistas, e a coleta de cópias dos primeiros manuscritos, nos permitem intuir que o conteúdo básico dos Evangelhos canônicos e de boa parte das epístolas era de conhecimento da maior parte das igrejas locais espalhadas pelo Império Romano já nos primórdios do século 2 d.C. Irineu de Lyon, um dos pais da Igreja Cristã, já por volta de 180 d.C. menciona serem 4 os Evangelhos aceitos pela Cristandade, os mesmos hoje presentes no cânon de todas as denominações cristãs. Diferentemente do que descrito pela literatura ficcional contemporânea (sucesso entre os que usam a questão canônica para desacreditar a Bíblia), a Igreja Cristã não precisou esperar até o Concílio de Niceia, no século 4 d.C., para decidir que Mateus, Marcos, Lucas e João eram os Evangelhos canônicos.
A lista mais antiga dos escritos do Novo Testamento, contendo os 27 livros, aparece em 367 d.C., numa carta de Atanásio, bispo de Alexandria, no Egito. Em 376 d.C., Eusébio, autor de Historia Ecclesiastica, publica novamente essa mesma lista de Atanásio. A primeira vez em que se faz referência à lista dos livros do Novo Testamento, num concílio, foi no Concílio de Cartago, em 397 d.C. A história mostra novamente que Deus levou os cristãos a reconhecerem um conjunto de livros como sendo o Novo Testamento. Todavia, sempre houve debates sobre alguns.
No caso específico do Novo Testamento, os estudiosos identificam até mesmo um conjunto de livros contra os quais se escreveu ou disse algo. Faziam parte desse conjunto de escritos contraditados, conhecido como antilegomena (―aqueles contra os quais se falou‖), a carta aos Hebreus, as epístolas de Tiago, 2Pedro e Judas, além do Apocalipse de João.
Todos os demais 22 livros do Novo Testamento, recebidos como inspirados desde a primeira hora em que foram entregues à Igreja, receberam a alcunha de homolegoumena (―aqueles a favor dos quais se falou‖).
5. Ordem dos livros
5.1. Antigo TestamentoConforme mencionamos, Igrejas com diferentes tradições canônicas têm posições distintas sobre a
extensão do cânon do Antigo Testamento. Em grande parte, essas divergências estão baseadas em três textos fundamentais:
• O Texto Massorético (texto hebraico), ou Bíblia Hebraica padrão (modernamente dividida em 39 livros, como nas Bíblias ―evangélicas‖).
• A Septuaginta (LXX), a primeira tradução do Antigo Testamento para uma outra língua (o grego):
A edição da Septuaginta mais utilizada hoje, organizada por Alfred Rahlfs em 1935, baseia-se em 3 manuscritos antigos (Codex Vaticanus, século 4 d.C., Codex Sinaiticus, século 4 d.C., e Codex
Alexandrinus, século 5 d.C.), e contém 53 livros (além daqueles presentes na Bíblia Hebraica padrão, há outros 14 livros, dentre os quais Eclesiástico, Sabedoria, Judite, Tobias, Baruque, os livros dos Macabeus, entre outros). Alguns dos livros da Septuaginta, como 1Esdras e 3 e 4Macabeus não fazem parte do cânon reconhecido pela Igreja Católica Romana, mas são considerados canônicos por uma ou outra das Igrejas Ortodoxas.
• A Vulgata: tradução de Jerônimo para o latim, que em 1546, por decisão do Concílio de Trento, tornou-se a Bíblia oficial da Igreja Católica Romana. A Vulgata oficializada pelo Concílio apresentava um Antigo Testamento com 46 livros: 39 do primeiro cânon (ou protocânon) e 7 do
assim chamado segundo cânon (ou deuterocânon).
5.2. Novo Testamento
No Novo Testamento, as divergências são menores, ou praticamente inexistentes.
5.3. Bíblias em português
No contexto brasileiro, há predominância de 2 tradições canônicas, a católica romana e a protestante ou evangélica. Quanto ao número e ordem dos livros, as Bíblias católicas romanas seguem a tradição da Vulgata, em sua revisão Sixto-Clementina, de 1592, apresentando 73 livros (46 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento). Ao seguirem a ordem estabelecida na Vulgata para os livros do Antigo Testamento, as
Bíblias católicas procuram apresentar o conteúdo em progressão histórica dos fatos, começando por Gênesis (o ―Livro dos Começos‖) e terminando em Malaquias (o profeta mais próximo dos acontecimentos do Novo Testamento). Já as Bíblias protestantes ou evangélicas seguem a Bíblia Hebraica quanto ao número de livros do Antigo Testamento, ou seja, 39. Quanto à ordem, porém, seguem a Vulgata, obedecendo à sugestão daquela
tradução para a progressão histórica da revelação profética.
No Novo Testamento, tanto católicos como protestantes convergem para um mesmo número de livros e, estes, numa mesma ordem, começando pelos Evangelhos e Atos, vindo, então, as epístolas paulinas (da mais extensa à mais breve, iniciando pelas destinadas a igrejas, continuando com as epístolas destinadas a cristãos individuais), e assim por diante, até o Apocalipse.
Conclusão
Se olharmos as centenas de traduções completas da Bíblia no mundo, veremos que há uma boa diversidade tanto no número de livros como na ordem desses livros na Bíblia. No entanto, não podemos perder de vista que essa diversidade, que atinge um certo número de livros marginais, não abala a convicção de que:
• Deus, de fato, inspirou um conjunto de livros.
• Deus preservou esses livros no decorrer da história.
• Deus, por meio desses livros, cria, edifica e preserva a sua Igreja espalhada pela terra.
• Deus, por meio desses livros, no poder do Espírito Santo, leva as pessoas a terem um encontro com Jesus Cristo, o Filho de Deus, a Palavra encarnada.
Milênios de história não esgotaram a curiosidade e as discussões em torno da questão canônica. E parece que isso tende a continuar assim até a volta de Cristo.
Que cada cristão faça uso condigno e assíduo das Escrituras conforme a tradição canônica adotada por sua Igreja Cristã, fazendo da Palavra Sagrada a regra de fé e vida para todos os seus dias, até que Cristo venha.Vem, Senhor Jesus! Amém.
Para aprofundar-se no tema:
ALEXANDER, David & Pat. Manual Bíblico SBB. Barueri: SBB, 2008.
BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento — cânon, língua e texto. Rio de Janeiro/São Paulo:
JUERP/ASTE, 1984.
BRUCE, F. F. The canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988.
COMFORT, Philip Wesley. The complete guide to Bible versions. Chicago: Tyndale Publishing House,
1996.
KEENE, Michael. The Bible. Oxford: Lion, 2002.
METZGER, Bruce Manning. The text of the New Testament—its transmission, corruption, and restoration. New York: Oxford University, 1968.
________. Comentario textual ao Nuevo Testamento Griego. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006.
MILLER, Stephen M. & HUBER, Robert V. A Bíblia e sua história — o surgimento e o impacto da Bíblia. Barueri: SBB, 2006.
PAROSCHI, Wilson. Crítica textual do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999.
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